passei muito tempo
no fundo de minha alcova
afiando as garras em pedra fria
e tratando de alimentar minha loucura
longe da superfície
até que um dia, por mudança de animosidade
intervenção divina, ou qualquer outra casualidade
quis me aventurar no mundo que há muito esquecera.
subi pelas paredes de rocha
feri minhas mãos, cortei minha pele nas escarpas
quando cheguei ao topo, me surpreendi:
eu não sabia que tinha asas.
me embebi num céu tão amplo
de cores tão ricas e dançantes
que nunca vira em meu exílio
quis mergulhar
quis me fazer em partes
pois só assim faria parte
daquilo que minha mente embriagava.
e foi somente então que voei.
-
Então, se eu cair aos teus pés
Com sangue nos lábios e as asas truncadas
Tal qual o filho de Dédalo
Não lhe permito derramar uma lágrima sequer.
Pois se eu cair pela sina de Ícaro
Significa que cheguei o mais perto que podia
Do Sol que eu tanto almejava.
E isso, por todos meus dias e todas minhas noites, bastaria.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
Lapsos de Terror
Histórias de terror são tão clichês. Monstros, fantasmas, serial killers deformados... Todos fadados ao lugar-comum, ao previsível. Afinal, nos filmes de terror até os sustos são padronizados: o assassino no banco traseiro do carro, o fantasma no espelho, o vulto suspeito no fim do corredor. Passei minha juventude inteira assistindo a essas baboseiras... Mas nenhuma história me preparou para o que seria o verdadeiro terror.
Sentir minha mente se despedaçando, os lapsos de memória... Me olhei no espelho e não vi fantasma algum, além de meu próprio reflexo amaldiçoado. Não consigo trabalhar, e não vejo outro ser humano há semanas. Os meus lapsos apagam dias inteiros de meu calendário. Minha única companhia tem sido meu gato, e seu olhar severo pousado sobre o que restou de mim.
Apesar do bichano estar desaparecido desde ontem... e minhas mãos estão cobertas de sangue.
Sentir minha mente se despedaçando, os lapsos de memória... Me olhei no espelho e não vi fantasma algum, além de meu próprio reflexo amaldiçoado. Não consigo trabalhar, e não vejo outro ser humano há semanas. Os meus lapsos apagam dias inteiros de meu calendário. Minha única companhia tem sido meu gato, e seu olhar severo pousado sobre o que restou de mim.
Apesar do bichano estar desaparecido desde ontem... e minhas mãos estão cobertas de sangue.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Decifra-me ou devoro-te.
Nunca fui mulher de me curvar. De me contentar com pouco. Jamais admiti ser tratada como uma segunda opção. Gosto de riscos, do incerto, lido com isso melhor do que você poderia imaginar. Desde que eu não me comprometa, que eu não me acorrente, que eu não tenha que cumprir acordos ao puxar de rédeas. Para pessoas como eu, que desvanecem sem avisar pelo simples fato de essa ser sua natureza mais verdadeira e primitiva, se deixar controlar é apenas uma forma ridícula de masoquismo.
Pode me chamar de orgulhosa, arrogante, individualista. Talvez eu seja. Não me force a partilhar meus segredos... um dia lhe conto. Ou não. Eu, se fosse você, não criaria expectativas. Também não me cobre amor. Eu evito, eu fujo, eu corro. Por quê? Porque eu não acredito. Acredito em ganância, em momentos, em desejo, em carne e sangue. Amor é duvidoso demais, traiçoeiro demais, em um minuto te deixa completamente vulnerável. Talvez um dia eu mude de ideia. Mas sobre isso, eu não crio expectativas.
Agora que fiz uma breve divagação, é sua vez. De indagar, seja a mim ou a si mesmo. Entenda, a primeiro momento, eu não me interesso pelo que você diz. Me convença. Venha aqui, enquanto entrevejo seu contorno através da fumaça de um cigarro e dos acordes do jazz, com o sorriso cínico da esfinge e seu enigma: decifra-me ou devoro-te.
Pode me chamar de orgulhosa, arrogante, individualista. Talvez eu seja. Não me force a partilhar meus segredos... um dia lhe conto. Ou não. Eu, se fosse você, não criaria expectativas. Também não me cobre amor. Eu evito, eu fujo, eu corro. Por quê? Porque eu não acredito. Acredito em ganância, em momentos, em desejo, em carne e sangue. Amor é duvidoso demais, traiçoeiro demais, em um minuto te deixa completamente vulnerável. Talvez um dia eu mude de ideia. Mas sobre isso, eu não crio expectativas.
Agora que fiz uma breve divagação, é sua vez. De indagar, seja a mim ou a si mesmo. Entenda, a primeiro momento, eu não me interesso pelo que você diz. Me convença. Venha aqui, enquanto entrevejo seu contorno através da fumaça de um cigarro e dos acordes do jazz, com o sorriso cínico da esfinge e seu enigma: decifra-me ou devoro-te.
Mary Jane
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Fútil
dispostos em roda
egos se engalfinham
numa guerra muda e surda
escondida por sorrisos corteses
e cordialidades vazias
ninguém precisa saber
das minhas convicções rotas
não tenho que explicar
o quanto me sinto miserável
foda-se se hoje em dia
sou uma mera sombra
do homem que fui,
e do que almejei me tornar.
tudo que preciso fazer
é rir, socializar,
e tomar este espumante caro.
que nem sei o que é,
mas quem vai se importar?
(e no tilintar das taças
e das conversas rasas
ninguém reparou na poça
de sangue rubro
manchando o carpete
obscenamente branco
do salão.)
egos se engalfinham
numa guerra muda e surda
escondida por sorrisos corteses
e cordialidades vazias
ninguém precisa saber
das minhas convicções rotas
não tenho que explicar
o quanto me sinto miserável
foda-se se hoje em dia
sou uma mera sombra
do homem que fui,
e do que almejei me tornar.
tudo que preciso fazer
é rir, socializar,
e tomar este espumante caro.
que nem sei o que é,
mas quem vai se importar?
(e no tilintar das taças
e das conversas rasas
ninguém reparou na poça
de sangue rubro
manchando o carpete
obscenamente branco
do salão.)
domingo, 12 de janeiro de 2014
Pesadelo
A noite se reclina sobre ela, murmurante.
Os lençóis, antes tão confortáveis, parecem sufocá-la aos poucos.
No mundo dos sonhos, uma realidade se despedaça
mesmo sendo intangível
(não consigo fugir pare pare tenho medo)
Tenta gritar, mas sua voz apenas dedilha
v a g a m e n t e
sua garganta, afogando-a no desespero.
Blam!
Acordou.
A respiração descompassada
Fios suados se agarrando à sua fronte
Batimentos sem controle
(shhh passou passou um pesadelo já foi já foi)
Se sente como um passarinho assustado.
Se sente sozinha,
se sente desamparada
se sente uma intrusa no quarto que habita há anos.
Respira fundo, e tenta se acalmar.
Não percebeu ainda as lágrimas rolando,
caindo brilhantes sobre o que restou de um sonho...
que despedaçou.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Estrela
vê meus dedos cobertos de carvão?
queimei-os quando estiquei a mão
para pegar uma estrela
numa noite que recendia
a vinho barato
a devaneios
e às teclas empoeiradas de um piano.
como assim, impossível?
já olhou pro céu à noite?
todas as estrelas são pequeninas
e cabem na palma da mão.
essa dançava pelos meus dedos,
quando se assustou com alguma coisa.
seu fogo me mordeu
e logo havia só uma fuligem
vagamente cálida.
e a noite,
em seus anseios
e ecos
e desafinos
e ressoante quietude
no universo infinito
que às vezes só está na minha cabeça.
(da próxima vez que eu for brincar com estrelas, vou usar luvas.)
queimei-os quando estiquei a mão
para pegar uma estrela
numa noite que recendia
a vinho barato
a devaneios
e às teclas empoeiradas de um piano.
como assim, impossível?
já olhou pro céu à noite?
todas as estrelas são pequeninas
e cabem na palma da mão.
essa dançava pelos meus dedos,
quando se assustou com alguma coisa.
seu fogo me mordeu
e logo havia só uma fuligem
vagamente cálida.
e a noite,
em seus anseios
e ecos
e desafinos
e ressoante quietude
no universo infinito
que às vezes só está na minha cabeça.
(da próxima vez que eu for brincar com estrelas, vou usar luvas.)
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